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Enquanto rivais batem cabeça e hesitam em meio a perdas e indecisões das matrizes, Stellantis avança firme rumo a um domínio sem precedentes
A fusão entre os grupos FCA (Fiat Chrysler) e PSA (Peugeot Citroën), formando a poderosa Stellantis, fez muito bem para as duas companhias, mas em caminhos diametralmente opostos no Brasil e no resto do mundo.
Na gringa, é o braço francês que tem mais força, sendo usado como ponto de partida, graças às plataformas modulares EMP1 e CMP, para um futuro rumo à eletrificação de toda a companhia. Por aqui, ao contrário, Peugeot e Citroën andam perdidas e enfraquecidas há anos, enquanto marcas da antiga FCA – leia-se Fiat e Jeep – velejam de vento em popa.
Usando uma estratégia agressiva, a Stellantis vem puxando as vendas das duas marcas francesas, que voltaram a ter mais de 1% de participação de mercado no primeiro trimestre de 2022: 2,63% para a Peugeot, 1,47% para a irmã. E olha que nem rolou ainda algum lançamento impactante para elas – o primeiro será o novo Citroën C3, nas próximas semanas.
Ao mesmo tempo, a Fiat chegou a 21,4% de fatia, domínio que não via desde o começo da década passada. A Jeep, por sua vez, abocanhou 7,67% de participação no primeiro trimestre do ano, mesmo tendo apenas três modelos efetivamente em oferta. E até a Ram, uma marca totalmente de nicho, já alcançou seu 0,1%. Parece pouco, mas com produtos todos na faixa de R$ 500.000, não há do que se reclamar.
Como resultado, a Stellantis assegurou para si exatos 33,27% ou praticamente um terço de todo o mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves entre janeiro e março. E a tendência é ampliar ainda mais o domínio, o que seria uma excelente notícia para a empresa, mas não tão alvissareira assim para nossa indústria.
Mercado mais importante e com mais atenção
O grande trunfo da Stellantis no Brasil está no fato de ser uma filial muito mais relevante globalmente do que qualquer outra montadora aqui instalada, graças ao “lado FCA”. A Fiat, por exemplo, é uma marca expressiva em pouquíssimos países – Itália e Turquia, talvez -, em nenhum deles como no Brasil.
Por isso, a matriz dá aos brasileiros um nível de autonomia que também não se vê em nenhuma concorrente. Enquanto executivos locais de gigantes como VW, GM, Renault, Toyota e Honda, têm que suar para convencer os conselheiros globais a aprovarem investimentos, os da Stellantis encontram sendas menos hostis e rostos mais amigos.
Em um cenário de pandemia, tudo isso só se intensificou: a Stellantis usou o prestígio global para manter aqui um volume produtivo e um suprimento de peças mais constante, enquanto GM e VW, por exemplo, vêm enfrentando paralisações constantes de suas linhas, visto que a prioridade é abastecer mercados mais abastados.
Tudo isso gera um ciclo (virtuoso para uma, vicioso para as demais): quanto mais volume e relevância, maior a prioridade e celeridade dos projetos. O aforismo também vale no sentido oposto, afetando inclusive o desenvolvimento de produtos que ainda serão lançados. A nova geração da Chevrolet Montana, por exemplo, atrasou para 2023.
No fim, enquanto as rivais correm com o milho atrás do prejuízo, a Stellantis já foi e voltou com o bolo de fubá pronto para ser servido.
Produtos em todos os segmentos
Também é fato que a Stellantis vem sabendo aproveitar muito bem essa vantagem, aproveitando suas diferentes marcas para se posicionar com celeridade em segmentos dos mais variados, preenchendo quase todas as lacunas de mercado.
Novo Citroën C3 (Foto: Divulgação/Citroën)
O novo Citroën C3 (SUV de entrada), o Fiat Fastback (um SUV cupê compacto) e a futura picape média da Ram são exemplos disso. Falta apenas acelerar o processo de eletrificação, mas o recente anúncio de lançamentos nesse sentido mostra que a Stellantis não ficará parada.
Ótimo para uma, ruim para todos
Os números e cenários são muito positivos para a Stellantis, que faz seu papel como tem que fazer e merece todos os parabéns. Mas não podem nem devem ser comemorados pela indústria brasileira num geral.
A seguirmos nesse compasso, voltaremos a viver num cenário de oligopólio ou, pior, monopólio, o que significará retração de investimentos, fábricas fechadas e muita gente sem emprego.
Basta ver o que fez a Ford há pouco mais de um ano para entender que não há futuro competitivo e com livre concorrência em um mercado estancado e dominado por um ou dois atuantes. A Stellantis tem muito a comemorar, mas a indústria automobilística brasileira tem muito a refletir.
Leia também a coluna anterior:
https://carsughi.uol.com.br/2022/04/em-poucos-anos-brasil-perdeu-ou-quase-mais-de-10-fabricas-de-carro/